QUILOMBOLAS DO BURACO, CUBAS E TRÊS BARRAS

Embora distintas, Buraco, Cubas e Três Barras são representadas por uma mesma associação (ACQTB), obtiveram como consequência um único certificado de reconhecimento pela Fundação Cultural Palmares. As condições específicas de acesso ao território montanhoso, que está configurado como uma barra que marca a confluência dos rios Três Barras, Cubas e Preto, delimitaram nos tempos passados e presente o alcance das trocas e intercâmbios, contribuindo para o estabelecimento dos estreitos laços de parentesco e vizinhança entre estas comunidades.

Jornal da ALMG, Abril/2013

Diferentes hipóteses são levantadas acerca da origem destas comunidades. Alguns relatos dão conta de que vieram de uma senzala do Itacolomi. Outros informam que parte eram meeiros de terras de fazendeiros da própria região. A este respeito uma estrutura arqueológica hidráulica presente no Moinho do Zé do Juca é apresentada pelos quilombolas do Buraco como testemunho do trabalho dos negros escravizados a força. Um olhar de terceiros sobre esta comunidade dizem que e era povo que “ficava de um lado para outro, plantando na Torre”.

Buraco na pedra feito por escravos – Moinho do Seu Juca -Região das Três Barras
Fonte: https://bit.ly/32gE6h0 – aos 01 minuto e 40 segundos

O mais certo é que as comunidades foram formados por negros provenientes de mais de uma localidade, inclusive em contextos pós-abolição , já que este contexto não lhes garantiu a posse da terra. Tais situações em alguns casos envolveram genocídios e saques, como o caso da fazenda Mata Cavalo. localizada no município do Morro do Pilar, mas que até a primeira metade do século XX esteve vinculada a Conceição do Mato Dentro. Datado de 1883, o estatuto desta propriedade – conhecido como Testamento de Mãe Tança (Constança)- seguia determinação de seu falecido pai, José Pereira de Abreu e Lima, fidalgo da Casa Imperial e amigo de D. Pedro II, que na prática transformava a fazenda Mata-Cavalo em um quilombo. Por meio dele são declarados livres todos os escravizados, antes mesmo da abolição, destinando aos mesmos como herdeiros de suas terras, sob a condição de inalienabilidade das mesmas, ou seja, de permanecerem ali morando em sociedade, sendo vetada a venda ou alienação. E assim procederam até 1930, momento em que tem início uma série de chacinas, incêndios criminosos e litígios jurídicos agenciados por fazendeiros da região com apoio do aparato jurídico-policial, pendendo sempre em desfavor dos proprietários, em clara dissonância com o estabelecido no estatuto testamentário. Durante todo este período os negros alforriados ali cultivaram principalmente o milho, feijão, café, bananas e cana-de-açúcar (a partir da qual produziam rapadura e cachaça) e celebraram explicitamente suas festas e rituais de devoção a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. (In:Grossi, Y.Souza;Martins.F. Herança negra de liberdade e exclusão Cad. hist., Belo Horizonte, v. 2, n. 2, jun. 1997:7-22) .

A cultura e a religiosidade popular prosseguem vivas no território. Em Três Barras e Cubas é realizada anualmente a Festa de Nossa Senhora do Rosário, sendo que nesta última realiza-se com a mesma periodicidade a Festa do Divino.

Festa do Divino em Cubas – (Júlio Jader , 2016)

Todavia, é preocupante o Inventário realizado pelo IPHAN em 2011 acerca do declínio da vitalidade das referências culturais destas comunidades. Neste estudo, é declarada a extinção de duas manifestações tradicionais de Cubas, reduzidas à Memória: a Dança do Pilão e a Dança da Umbigada. Por sua vez, embora na ocasião a Marujada de Três fosse apontada como operante, seu estado é terminal, sendo que os Marujeiros não se agrupam e os poucos que sobreviveram já foram incorporados por outras Marujadas da cidade como a do Sr. Chiquito e a da Sede. O filme ” Quilombos da Serra do Cipó”, que corresponde aos registros audiovisuais do INRC do IPHAN (2011), ilustra a importância cultural da Marujada de Três Barras para a linha do tempo da comunidade(de 37 minutos e 02 segundos em diante).

Ver relato sobre Marujada de Três Barras a partir de 37 minutos e 02 segundos

Outra referência importante, mas que trata especificamente do processo de formação histórico e cultural destas comunidades é “MEMÓRIAS – A história da comunidade quilombola de Três Barras, Buraco e Cubas, realizado em 2013 através de Apoio do Edital de Micro Projetos da Funarte/MINC.

FILME MEMÓRIAS – Edital MICRO PROJETOS FUNARTE/2013

Já a Comunidade do Buraco não possui nenhuma manifestação que remeta ao legado africanos Por outro lado, exetuando-se a parcela de terra alienada há alguns anos sob a pressão econômica e política dos confinantes, trata-se da única entre as três comunidades que mantém a identidade territorial no presente atrelada à identidade quilombola, fazendo valer a luta pelo que lhes sobrou das terras. Três Barras e Cubas sucumbiram à especulação imobiliária e parte dos moradores vendeu as terras para sitiantes. Como efeito deste processo observa-se o surgimento de pousadas e outros negócios empreendidos pelos recém chegados. Há uma visão nestas duas comunidades de que é possível preservar a identidade e os benefícios de ser quilombola abrindo mão do estatuto coletivo inerente à legislação da matéria (através da alienação individual das terras) . Diante deste “quiprocó”, o MPMG e o INCRA tem feito diligências para auxiliar na solução do impasse.

Impossível fazer menção a estas comunidades sem fazer referência a Cachoeira de Três Barras, ponto comum da estrada de terra que bifurca-se à direita para Três Barras e à esquerda para o Buraco, de onde segue mais adiante para Cubas. De cada comunidade partem trilhas, usadas historicamente pelos tropeiros, que vão convergindo em direção ao distrito vizinho do Tabuleiro.

A trilha que sai por Três Barras (e em certa altura é reforçada por uma vertente direita que vem do Buraco) sobe a serra até a fabulosa Torre de Pedras e cujo mistério em torno de sua formação deu origem a curiosa casuística que ora remetia sua origem apara os paleoíndios, ora para extraterrestres. A hipótese mais corrente hoje é a geológica e do alto dos seus 45 metros é possível fruir uma vista deslumbrante das vertentes opostas da Serra, incluindo os distritos de Três Barras e do Tabuleiro.

Torre de Pedras – Três Barras

O entorno da Torre de Pedras configura-se como autêntico sítio arqueológico que, ao lado de dados etnográficos, evidencia informações valiosas sobre o histórico campesinato negro no território, em função das áreas remanescentes de plantio, a maioria destinada para uso atual da pecuária. Nestas áreas, os agricultores de Três Barras, Buraco e também Tabuleiro estabeleciam com os fazendeiros da oligarquia local relações de exploração do trabalho como diária, arrendamento, terça, meia e varias formas de “contrato” tradicionais. Sazonalmente, aproveitando as chuvas de verão que facilitam os processos de aragem e semeadura, é possível identificar uma ou outra roça ativa, neste caso ainda se caracterizam uso de ferramentas e técnicas tradicionais (foto abaixo).

Arado Animal puxado por dois garrotes – Técnica tradicional de cultivo em área de plantio no entorno da Torre de Pedras – Três Barras. (Júlio Jader, 2014)

Já a trilha que segue em direção à Cubas chega até a Casa de Sr. Geraldo, adjunta da Capela onde se realiza a Festa do Divino e onde pode-se apreciar uma culinária típica como frango com angú e guandó, as margens do Rio Cubas. É possível curtir a linda e bucólica Cachoeira de Cubas, situada pouco mais de 500 metros à montante. Ou então prosseguir a subida até o alto da Serra para de lá escolher entre descer diretamente para o Tabuleiro, passando pela maravilhosa região do Salto ou seguir até alto da Cachoeira de mesmo nome, para dali estabelecer conexões mais amplas com o turismo geral na Serra do Cipó, uma vez que deste ponto pode se seguir para a já consagrada localidade turística da Lapinha da Serra, já no município de Santana do Riacho.

Mais recentemente, pode ser notado o incremento do capital social de Buraco, Cubas e Três Barras, associado à iniciativas e projetos comunitários protagonizados por seus moradores. Em Buraco e Três Barras a dimensão de gênero é evidente. Na primeira, mulheres, sobretudo jovens, vem se dedicando à lindos artefatos e até mesmo mobílias de Bambu. Algumas delas participam também do Grupo de Mulheres Mãos de Conceição, com sede em Três Barras e que se dedica ao artesanato em tecido com motivos paisagísticos e identitários quilombolas.

https://bit.ly/2OJjPfX

Já em Cubas destaca-se um projeto de revitalização de Moinho de Fubá, articulado a iniciativa de turismo comunitário envolvendo outros atrativos já mencionados.

.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *