OURO FINO

Situado na parte Centro-Oeste de Conceição do Mato Dentro, o distrito de Ouro Fino foi colonizado a partir do século XVIII, com a descoberta do ouro nas margens dos cursos água do entorno, provocando um grande afluxo de africanos escravizados para o trabalho nas Minas e cuja presença é atestada na composição populacional e legado cultural.

O destaque são os escombros da Igreja Nossa Senhora Aparecida de Ouro Fino, construída nos anos 90 do século XX sob a liderança do camponês negro Abel Matias de Souza (1926-2002), que além de católico e Mestre de Marujada era Médium de Umbanda. Não obstante ao estado de sua edificação, trata-se de caso único no Brasil de Bem Cultural Comunitário cuja materialidade conjuga elementos estéticos que remetem às cosmologias de origem africana e ao cristianismo esotérico.

O Altar é voltado para o Leste – nascente do Sol – para onde correm as águas purificando desde à Serra em direção ao Mar e possui como motivos rosetas circulares remetem à memória da Mãe Divinal e o Pentagrama como referência à Jesus Cristo. Na fachada destaca-se o Arco-Íris, símbolo do movimento espiritualista da Nova Era. A edificação é cercada por plantas consideradas sagradas pelas religiões afro brasileiras, como espada de São Jorge, Dracena Vermelha e Comigo Ninguém Pode.

Igreja Nossa Senhora Aparecida de Ouro Fino (Júlio Jader,2014)

Mais no alto, na Gurita, localiza-se o Sítio Arqueológico “Engenho de Pedras-Tenda Pai Joaquim de Aruanda”, assentado por Abel Matias de Souza nos anos 60 e celebrado na memória oral de todos que testemunharam sua obra.

Estatuto da Tenda Pai Joaquim de Aruanda, com registro cartorial datado de 1967.
Foto Júlio Jader (2016).

Tanto a Igreja Nossa Senhora Aparecida de Ouro Fino quanto a Tenda Pai Joaquim de Aruanda reforçam a importância das narrativas locais, cujos personagens e agências coletivas são proscritos para o anonimato, por força dos discursos de poder estabelecidos justamente sobre a supressão destes saberes e memórias horizontais. Com efeito, uma imersão pelo distrito de Ouro Fino revela o total desconhecimento de figuras associadas às grandes narrativas bandeirantes, como Gabriel Ponce de Léon. O contrário pode ser dito sobre a reverberação de Abel Matias de Souza na comunidade, configurando-se como um ponto a partir do qual as mesmas conseguem contar suas histórias ou, em outros termos, celebrar suas memórias.

Ouro Fino tornou-se distrito em 30 de setembro de 2003, por meio da Lei Municipal nº 1.742. A população local é de 480 habitantes (Censo 2010/IBGE). Conta com uma associação comunitária – ASCOF.

Texto e montagem: Júlio Jader Costa – Grift Espinhaço S/A. 2019

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